“O que nos separa não são as nossas diferenças, e sim a resistência em reconhecer essas diferenças e enfrentar as distorções que resultam de ignorá-las e mal interpretá-las. Quando nos definimos, quando eu defino a mim mesma, quando defino o espaço onde eu sou com você e o espaço onde não sou, não estou negando o contato entre nós, nem estou te excluindo do contato – estou ampliando nosso espaço de contato.” Audre Lorde
O termo ‘Interseccionalidade’ foi primeiramente cunhado por Kimberlé Crenshaw, em seu ensaio “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory and Antiracist Politics.”, de 1989. [1] Este conceito é resultado do movimento de inúmeras mulheres negras que passaram a discutir as limitações de um feminismo que, julgando as experiências de mulheres brancas e de classe média como universais, invisibilizava a experiência única vivida por mulheres negras e pobres.
Kimberlé Crenshaw se utiliza da analogia da encruzilhada para descrever o conceito:
“Consider an analogy to traffic in an intersection, coming and going in all four directions. Discrimination, like traffic through an intersection, may flow in one direction, and it may flow in another. If an accident happens in an intersection, it can be caused by cars traveling from any number of directions and, sometimes, from all of them. Similarly, if a Black woman is harmed because she is in an intersection, her injury could result from sex discrimination or race discrimination…But it is not always easy to reconstruct an accident: Sometimes the skid marks and the injuries simply indicate that they occurred simultaneously, frustrating efforts to determine which driver caused the harm.” [2]
“Considere uma analogia com o tráfego em um cruzamento, indo e vindo em todas as quatro direções. A Discriminaçao, assim como o tráfego através de um cruzamento, pode fluir numa direção, e pode fluir na outra. Se um acidente acontece em um cruzamento, ele pode ser causado por automóveis que se deslocam a partir de qualquer número de direções e, as vezes, a partir de todos eles. Da mesma forma, se uma mulher negra é prejudicada por estar em um cruzamento, sua ofensa pode resultar de discriminação sexual ou discriminação racial (…) mas, nem sempre é fácil reconstruir um acidente: Às vezes as marcas de derrapagem e as lesões simplesmente indicam que ocorreram simultaneamente, frustrando esforços em determinar qual motorista causou o dano.”
No livro “Woman, Race and Class” de 1981[3], Angela Davis discute os legados da escravização para as mulheres negras que produzem novos padrões de feminilidade. Como parte desse legado, as mulheres sobreviventes da escravidão adquiriram qualidades consideradas verdadeiros Tabus para o conceito de mulher do século XIX:
“Required by the masters’ demands to be as “masculine” in the performance of their work as their men, Black women must have been profoundly affected by their experiences during slavery. Some, no doubt, were broken and destroyed, yet the majority survived and, in the process, acquired qualities considered taboo by the nineteenth-century ideology of womanhood. A traveler during that period observed a slave crew in Mississippi returning home from the fields and described the group as including (. . . ) forty of the largest and strongest women I ever saw together; they were all in a simple uniform dress of a bluish check stuff; their legs and feet were bare; they carried themselves loftily, each having a hoe over the shoulder, and walking with a free, powerful swing like chasseurs on the march.”[4]
“Requisitadas pelas demandas de seus mestres a serem tão “masculinas” no exercício de seu trabalho quanto seus homens, mulheres negras devem ter sido profundamente afetadas pelas suas experiencias durante a escravidão. Algumas, sem dúvida, foram quebradas e destruídas, mas a maioria sobreviveu e, no processo, adquiriu qualidades consideradas tabu pela ideologia de feminilidade do século XIX. Um viajante durante esse período observou uma equipe de escravos no Mississipi voltando dos campos para casa e descreveu o grupo como incluindo ‘ Quarenta das maiores e mais fortes mulheres que eu já vi juntas; elas estavam todas em um vestido uniforme simples de um material azulado; suas pernas e pés estavam nus; elas carregavam a si mesmas altivamente, cada uma com uma enxada nos ombros, e caminhavam com um livre, poderoso balanço, como Chasseurs [5]em uma marcha”.
O emblematico discurso “Ain’t I a Woman?”, proferido por Sojourner Truth na ‘Women’s Convention’ de 1851em Ohio, é ilustrativo dessa diferenciação:
“That man over there says that women need to be helped into carriages and lifted over ditches, and to have the best place everywhere. Nobody ever helps me into carriages, or over mud-puddles, or gives me any best place! And ain’t I a woman? Look at me! Look at my arm! I could have ploughed and planted, and gathered into barns, and no man could head me! And ain’t I a woman? I could work as much and eat as much as a man—when I could get it—and bear the lash as well! And ain’t I a woman? I have borne thirteen children, and seen them most all sold off to slavery, and when I cried out with my mother’s grief, none but Jesus heard me! And ain’t I a woman?”
“Aquele homem ali diz que mulheres precisam ser carregadas em carruagens e elevadas sobre valetas, e ter sempre o melhor lugar em todos os lugares. Ninguém nunca me carregou em carruagens ou acima de lama-poças, ou me deu nenhum melhor lugar! E eu não sou uma mulher? Olhe para mim! Olhe meu braço! Eu poderia ter arado e plantado, e me recolhido em celeiros, e homem nenhum poderia me dirigir! E eu não sou uma mulher? Eu poderia trabalhar e comer tanto quanto um homem – quando eu pudesse obtê-lo – e arcar com o chicote também! Eu dei à luz treze filhos, e vi a maioria deles vendidos para a escravidão, e quando eu gritei com meu sofrimento materno, ninguém além de Jesus me ouviu! E eu não sou uma mulher?”
A partir desses relatos sigo para uma das principais colocações do pensamento interseccional: as experiências das pessoas dentro do capitalismo se diferenciam conforme as opressões e relações de exploração em que estão encerradas.
Entre as frequentes colocações contra uma leitura interseccional da realidade está o discurso da “excepcionalidade” da exploração de classe. As opressões e as questões de classe são separadas e as primeiras reduzidas à identidades, cujos antagonismos seriam resolvidos por alteridade, ou seja, pela coexistência pacífica das diferenças, enquanto as relações de classe seriam resolvidas transformando as diferenças econômicas em antagonismos de classe, pelo motivo de na luta de classes o proletariado ter o papel de superar a burguesia enquanto classe e aniquilar a si mesma enquanto proletariado.
Essa avaliação compartimentada guarda limitações importantes. As relações de raça, identidade de gênero, orientação sexual e classe não podem ser encaradas como simples relações de diferença. Elas são relações de desigualdade, estão encerradas em relações de exploração e opressão transversais, que criam situações de subalternidade particulares. O Racismo é uma relação social onde um indivíduo é explorado de maneira particular por ser racializado. O Sexismo é uma relação social onde um indivíduo é explorado de maneira particular com base no gênero com que se alinha dentro da cis-norma. Cissexismo é uma relação social onde um indivíduo é explorado de maneira particular por não se identificar com as designações de gênero impostas pela cis-norma.
Um pensamento chave da Interseccionalidade é que em qualquer relação social, questões de classe, raça, orientação sexual e identidade de gênero estão colocadas de forma imbricada. Não é possível alegar que, por exemplo, mulheres cis negras experimentam sexismo por um lado e racismo por outro, como que opressões vividas separadamente. O sexismo que as mulheres cis negras enfrentam é racializado e o racismo que enfrentam é sexizado. O cissexismo que mulheres trans e negras sofrem é racializado e o racismo que sofrem é cissexizado.
Podemos nos reportar à experiência da escravização para visualizar melhor essa relação: se por um lado, mulheres negras eram desumanizadas e “masculinizadas” ao lado dos homens negros, e cumpriam todo o trabalho na mesma proporção e intensidade que os homens, desarticuladas assim do lugar de fragilidade atribuído às mulheres cis brancas debaixo do patriarcado; quando era conveniente que elas fossem exploradas e reprimidas como mulheres, elas o eram. O papel dos estupros, violações sexuais, como expressão da manutenção do poder econômico do senhor de escravos sobre o trabalho feminino exemplifica essa relação. Angela Davis nos informa que uma contradição do sistema escravista era que, ao igualar as mulheres e homens negros na exploração de seus trabalhos, resultava num ativismo semelhante entre esses homens e mulheres em sua resistência ao sistema. Uma das faces dos abusos sexuais dizia respeito a lembrar às mulheres negras o seu lugar de “fragilidade feminina”. Visava-se desmotivar a resistência das mulheres negras e, em contrapartida, desmoralizar seus homens. [6]
O lugar das mulheres cis e trans negras e não-negras na sociedade de classes guarda diferenças importantes do lugar das mulheres cis brancas. Se para as mulheres cis brancas, o trabalho foi um direito adquirido, para as mulheres cis negras o trabalho sempre foi uma realidade imposta, começando pela escravização. Enquanto mulheres brancas, por causa do sexismo, recebem 30% menos que um homem branco, para cumprir as mesmas funções, uma mulher negra, por causa do sexismo racializado, recebe 25% menos que uma mulher branca. Ao mesmo tempo, mulheres trans, negras ou não-negras, completamente invisibilizadas nesta sociedade cis-normativa, ainda não tem sequer o direito ao trabalho formal garantido. Enquanto mulheres cis e brancas usufruem do direito ao trabalho fora de casa, mulheres cis e negras às substituem no serviço dentro dos lares na posição de empregadas domésticas, e mulheres trans negras e não- negras enfrentam situações de trabalho ainda mais precarizadas, isso enquanto (e quando) sobrevivem aos ataques transfóbicos, aos assassinatos, à depressão e aos suicídios decorrentes da contínua violência que sofrem. Evidentemente, se tratando de mulheres trans e negras, essa exploração e violência ganha novas experiências de subalternização racializada. Quando mulheres cis brancas lutam pelo direito ao aborto, mulheres cis negras também o fazem, mas além disso, mulheres cis negras também precisam lutar pelo direito de serem mães de filhos vivos, filhos que não sejam assassinados pelo aparato repressor do Estado capitalista e racista, e mulheres trans, negras ou não-negras, ainda precisam lutar para não serem patologizadas e contra todos os desdobramentos da transfobia, sendo a condição de mães completamente inviabilizada para a extensa maioria dessas mulheres que ainda precisam continuamente provar que existem.
A observação que se coloca é que ao mesmo tempo que a opressão sofrida pelas mulheres cis negras e trans negras e não-negras está ligada ao patriarcado, guarda diferenças marcantes em relação à opressão machista sofrida pelas mulheres cis brancas.
O legado da escravidão e os bloqueios racistas aos direitos legais igualitários, acesso à educação, saúde, à terra e segurança, que separaram por décadas após a abolição da escravatura, e ainda bloqueiam a inserção do povo negro em todos os espaços (com exceção das prisões, manicômios e cemitérios) e diferenciam a experiência dos povos negros e não-negros no Brasil, implica que uma leitura das classes trabalhadoras racializadas deve ser informada pela particularidades de sua história e vivências na sociedade de classes.
Uma colocação frequente é a de que a discussão interseccional divide a classe trabalhadora em indivíduos atomizados, cuja centralidade nas experiências resulta numa luta de “cada um por sí mesmo”. Essa visão diverge totalmente do que a leitura interseccional se propõe. A interseccionalidade é um chamado à unidade. A defesa de que todas as formas de opressão devem ser visibilizadas, combatidas, levadas à sério, incluindo a exploração de classe. É a defesa de que todas as opressões são conectadas por estarem enraizadas nas mesmas estruturas sociais capitalistas. A fragmentação das lutas acontece à partir do momento em que se toma que apenas os indivíduos oprimidos são responsáveis por lutar contra a opressão que sofrem, o que, por principio, é contrário à ideia de interseccionalidade. Aqui, não estamos falando em protagonismo, mas em responsabilidade com as lutas. Audre Lorde nos dá um exemplo concreto deste problema:
“Quando as mulheres brancas ignoram o privilégio que supõe que elas são brancas numa sociedade racista e definem a todas as mulheres unicamente com base na sua própria experiência, nós, Mulheres de Cor, nos convertemos ‘nas outras’, umas estranhas cuja experiência é demasiado alheia para ser compreendida. Um exemplo é a significativa ausência de mulheres de cor em estudos de gênero. Muitas vezes, a desculpa é que a literatura das Mulheres de Cor só pode ser ensinada por Mulheres de Cor, e que é uma literatura difícil de entender porque provém de experiências ‘muito diferentes’. Escutei esse argumento da boca de mulheres brancas que não tem nenhum problema em ensinar sobre o trabalho de pessoas com experiências de vida tão díspares como Shakespeare, Molière, Dostoievsky ou Aristófanes” [7]
Outra crítica diz que interseccionalidade, sendo baseada na experiência, privilegia condições específicas de determinados grupos, fazendo uma cisão entre a realidade material, questão de gênero, raça e classe e por esse motivo deveria ser rejeitada. Deve ficar salientado aqui que a interseccionalidade não é uma teoria que se propõe a explicar em si mesma a origem das opressões, mas antes descrever a experiência diferenciada de opressão e exploração que surge da complexa combinação de diferentes estruturas de poder. Adicionalmente, do ponto de vista materialista histórico e dialético, para explicar a experiência e extrair as generalizações e lições aprendidas, é imprescindível aprender com a experiência, norteados de que essas relações de experiência não são estáticas e portanto devem ser analisadas dialeticamente, como relações em movimento.
Nesta discussão, o conceito de Experiência Histórica e Cultural cunhado por Thompson nos dá considerações preciosas. O historiador teceu severas críticas à corrente marxista estruturalista, principalmente às teorias althusserianas, que concebiam a formação das classes sociais como indissociáveis das categorias de infraestrutura e superestrutura, ou em outras palavras, como produto do desenvolvimento das bases produtivas:
“Classes trabalhadoras é um termo descritivo, tão esclarecedor quanto evasivo. Reúne vagamente um amontoado de fenômenos descontínuos. Ali estavam alfaiates e acolá tecelãos, e juntos constituem as classes trabalhadoras.
Por Classe, entendo um fenômeno histórico (…) não vejo a classe como uma ‘estrutura’, nem mesmo como uma ‘categoria’, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas. Ademais, a noção de classe traz consigo a noção de relação histórica. Como qualquer outra relação, é algo fluido que escapa à analise ao tentarmos imobilizá-la num dado momento e dissecar a sua estrutura. A mais fina rede sociológica não consegue nos oferecer um exemplar puro de classe, como tampouco um do amor ou da submissão. A relação precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais. Além disso, não podemos ter duas classes distintas, cada qual com um ser independente, colocando-as a seguir em relação recíproca. Não podemos ter amor sem amantes, nem submissão sem senhores rurais e camponeses. A classe acontece quando alguns homens, como resultado de experiências comuns (herdadas ou partilhadas), sentem e articulam a identidade de seus interesses entre si e contra outros homens cujos interesses diferem (e geralmente se opõem) dos seus. A consciência de classe é determinada, em grande medida, pelas relações de produção em que os homens nasceram – ou entraram involuntariamente. A consciência de classe é a forma como essas experiências são tratadas em termo culturais: encarnadas em tradições, sistemas de valores, idéias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o mesmo não ocorre com a consciência de classe. Podemos ver uma lógica nas reações de grupos profissionais semelhantes que vivem experiências parecidas, mas não podemos predicar nenhuma lei. A consciência de classe surge da mesma forma em tempos e lugares diferentes, mas nunca exatamente da mesma forma.” [8]
Para Thompson, uma visão estática e estruturalista das classes sociais não trazia as respostas. Thompson concebia a formação das classes sociais como um processo dinâmico e interiormente heterogêneo em seus significados. O conceito de experiência era um modelo unificador das ações dos trabalhadores, e apenas através das experiências seria possível explicar teoricamente as mudanças históricas.
“Evidentemente, a questão é como o indivíduo veio a ocupar esse ‘papel social’ e como a organização social específica (com seus direitos de propriedade e estrutura de autoridade) aí chegou. Estas são questões históricas. Se detemos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões, em suas relações, suas ideias e instituições. A classe é definida pelos homens enquanto vivem sua própria história e, ao final, esta é a sua única definição.” [9]
Com esse ponto de análise, Thompson objetiva então dar visibilidade às contribuições de indivíduos e os elementos que estão entrelaçados e se transformam mutuamente em suas formações sociais e de ações coletivas, esquecidos nas análises marxistas estruturalistas.
O proletariado não é explorado pura e simplesmente pelas relações de trabalho. O proletariado é negro ou não negro, mulher ou homem, transgênero, cisgênero ou não binário, heterossexual ou homossexual. A luta de classes dos trabalhadores negros é necessariamente experimentada de forma particular que a dos trabalhadores não negros e guarda diferenças concretas inclusive na dificuldade de organização. Em oposição à classe trabalhadora branca, os trabalhadores negros, explorados e oprimidos de forma diferente econômico e socialmente, se defrontam com obstáculos igualmente diferentes à organização do que os companheiros brancos. Diante disso, é preciso questionar: que interesses imediatos são visibilizados e atendidos por movimentos que defendem o discurso de excepcionalidade da classe? Que classe trabalhadora é emancipada nesta luta? Desde que a classe trabalhadora é composta por indivíduos objetos de diferentes experiencias de exploração, uma luta de classes condizente com a emancipação deste grupo heterogêneo necessariamente deve ser multifacetada. É preciso reconhecer as interligações e atuar diante das contradições.
A exploração do trabalho e o modo de produção escravista que ancorou a formação do capitalismo nos países das Américas e a disputa imperialista e colonização dos países asiáticos e africanos trazem particularidades à formação das classes trabalhadoras e semelhantemente às relações de opressão nesses países, que não são explicadas por uma análise centrada nas sociedades européias, discutidas pelo marxismo clássico.
Estou convencida de que uma leitura interseccional, fundamentada nas experiências históricas, é imprescindível para entender a relação dialética com que relações de opressão e exploração aparentemente desconexas na verdade se imbricam e modificam simultaneamente, determinando a materialidade dos grupos explorados e oprimidos. É preciso lutar contra todas as formas de exploração e opressão e, antes disso, é preciso compreender o que isso significa para os grupos oprimidos debaixo do capitalismo.
Finalizo citando um trecho de uma entrevista com a intelectual negra bell hooks, para o Third World ViewPoint [9]:
“PVTM: Como você combina a luta contra o patriarcado e contra o capitalismo?
BH: Eu acho que estrategicamente, temos que começar em todas as frentes. Por exemplo, eu estou muito preocupada de que há mulheres negras não mais profundamente comprometidos com a política anti-capitalista. Mas seria preciso entender o papel que a opressão de gênero desempenha no sentido de incentivar jovens mulheres negras a pensar que eles não precisam estudar sobre o capitalismo .Que não precisam ler homens que foram meus professores como Walter Rodney, e Nkrumah , e Amilcar Cabral. Eu acho que, como uma garota que cresceu em um agregado familiar do sul, negro, patriarcal, da classe trabalhadora, houve uma convergência dessas questões de classe e gênero . Eu estava ciente da minha classe, e eu estava ciente das limitações impostas a mim pelo gênero. Eu não seria a trabalhadora comprometida pela liberdade que eu sou hoje se eu não tivesse começado a me opor a essa noção de gênero da aprendizagem que sugere que a política é o reino dos homens e que o pensamento político sobre a luta anti-racista e colonialismo é para os homens.
Eu sou muito à favor do tipo de educação para a consciência crítica que diz: Não vamos olhar para estas coisas separadamente. Vamos dar uma olhada em como eles convergem para que, quando começarmos a tomar uma posição contra eles, possamos tomar esse tipo de postura estratégica que nos permite ser auto-determinados como um povo lutando de uma forma revolucionária em todas as frentes.
PVTM: Em termos de seu próprio desenvolvimento político, você diria que a sua análise é informada por uma crítica marxista da sociedade capitalista?
BH: Absolutamente. Eu acho que o pensamento marxista – o trabalho de pessoas como Gramsci – é muito importante para educar-nos para a consciência política. Isso não significa que nós temos que tomar o sexismo ou o racismo que foge a esses pensadores e ignorá-lo . Isso significa que podemos extrair os recursos de seu pensamento que podem ser úteis a nós na luta. A análise enraizada na classe é onde eu comecei todo o meu trabalho. O fato é que foi contra o feminismo branco burguês que eu estava reagindo quando eu estava em minhas primeiras aulas de estudos de mulheres e disse: “As mulheres negras sempre trabalharam.” Foi um desafio com viés de classe para a estrutura do feminismo.”
[1]Crenshaw, K. “Demarginalizing the Intersection of Race and Sex: A Black Feminist Critique of Antidiscrimination Doctrine, Feminist Theory, and Antiracist Politics,” University of Chicago Legal Forum, 1989, 139–67.
[2] Ibid., 149.
[3] Davis, A. “Woman, Race and Class”, New York (Random House:1981).
[4] Olmsted, F. L. “A Journey in the Back Country” (New York: 1860) pp. 14-15
[5] Chasseur significa caçador em Francês. É a designação para alguns regimentos da infantaria francesa e bélgica.
[6] Davis, A. “Woman, Race and Class”, New York ( Random House: 1981) pp. 24
[7] Ptqk, M. “La hermana outsider Audre Lorde” em: http://www.pikaramagazine.com/2013/06/la-hermana-outsider-audre-lorde
[8] Thompson, E. P. A formação da classe operária inglesa. Prefácio. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
[9] Ibid.
[10]“Challenging Capitalism & Patriarchy” em: http://soaw.org/index.php?option=com_content&view=article&id=910 McBean, S.
[11] “What is intersectionality?” em: http://rs21.org.uk/2013/08/13/what-is-intersectionality/
Realmente excelente! Ate bell hooks, porem, esquece da politica da respeitabilidade e como essa deve ser incluida em nossa analise interseccional.
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Maravilhosa sua escrita e a condensação das ideias! Estou buscando a fonte da primeira citação da Audre Lorde, você por acaso saberia onde posso achar? Muito obrigada!
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Olá Camila,
Peço desculpas pela imensa demora.. fiquei um tempão sem tocar o blog.
A fonte está nesse texto: http://blogueirasfeministas.com/2014/08/a-irma-outsider-audre-lorde/
Obrigada pelo comentário,
Abraços
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maravilhoso texto de formação, parabéns!! gostaria de saber de qual obra extraiu o trecho de lord do início do texto. obrigada
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Olá Luna,
Sinto muito pela demora, estou retomando o blog hoje. Encontrei esse trecho no seguinte texto: http://blogueirasfeministas.com/2014/08/a-irma-outsider-audre-lorde/
Muito obrigada e um abraço!
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